sexta-feira, 11 de junho de 2010

O VIZINHO DE BURKA - Slavoj Žižek


O VIZINHO DE BURKA
Slavoj Žižek
Tradução: Rodrigo Nunes Lopes Pereira

Em janeiro de 2010, Jean-François Copé, o líder no parlamento da Union Pour un Mouviment Populaire, o partido majoritário francês, propôs um projeto de lei que proibe o véu de corpo inteiro nas ruas francesas e em todos os outros lugares públicos. Este anúncio veio depois de seis meses de debate angustiante sobre a burka e seu equivalente árabe, o niqab, que cobre o rosto da mulher, exceto por uma pequena fenda para os olhos. Todos os principais partidos políticos expressaram sua rejeição à burka: o principal partido de oposição, o Parti Socialiste, disse que é “totalmente contrário à burka”, que equivale a uma “prisão para a mulher”. Os desacordos são de natureza puramente tática: embora o presidente Nicolas Sarkozy se oponha ao total banimento da burka como contraproducente, ele conclamou um “debate sobre a identidade nacional” em outubro de 2009, alegando que a burka é “conta a cultura francesa”. A lei multa em até 750 euros qualquer pessoa que aparecer em público “com seu rosto inteiramente ocultado”; isenções permitiriam o uso de mascaras em “ocasiões festivas, tradicionais”, como carnavais. Rígidas punições seriam estabelecidas para homens que “forçassem” suas esposas ou filhas a usar o véu de corpo inteiro. A ideia subjacente é que a burka ou niqab são contrários às tradições francesas de liberdade e às leis sobre os direitos das mulheres, ou, para citar Copé: “Nós podemos medir a modernidade de uma sociedade pela forma como trata e respeita as mulheres”. A nova legislação é, assim, destinada a proteger a dignidade e segurança das mulheres. Além disso, como disse Sarkozy, os véus “não são bem-vindos” porque, em um país secular como a França, eles intimidam e alienam os não-muçulmanos... não se pode deixar de notar como o supostamente universalista ataque à burka em nome dos direitos humanos e dignidade termina como uma defesa do modo de vida particular francês.
Essa lei, claro, deu origem a muitas críticas pragmáticas – o medo é que, se ela for implementada, irá aumentar a opressão das mulheres muçulmanas: elas simplesmente serão impedidas de sair de casa e serão ainda mais cortadas da sociedade, expostas ao tratamento cruel dos casamentos forçados, etc. Além disso, a multa irá exacerbar a questão da pobreza e do desemprego: ela irá punir as mesmas mulheres que provavelmente têm menos controle sobre seu próprio dinheiro. O problema é, contudo, mais fundamental – o que torna todo esse debate sintomático é, primeiro, o status marginal do problema: a nação inteira fala sobre isso, enquanto que o número total de mulheres que vestem ambos os tipos de véu de corpo inteiro na França está em torno de 2000, de um total de mulheres adultas muçulmanas na população francesa em torno de 1.500.000. (E, a propósito, a maioria das mulheres que veste o véu de corpo inteiro tem menos de 30 anos e parte substancial delas são mulheres francesas que se converteram). O próximo aspecto curioso é a ambiguidade da crítica à burka: ela se movimenta em dois níveis. Primeiro ela é apresentada como uma defesa da liberdade e dignidade da mulher muçulmana oprimida – não se pode aceitar que em uma França secular um grupo de mulheres tenha que viver uma vida escondida, isolada do espaço público, subordinadas à brutal autoridade patriarcal, etc. Não obstante, em geral o argumento se desloca em seguida para as ansiedades do próprio povo francês não muçulmano: os rostos cobertos pela burka não se ajustam às coordenadas da identidade e cultura francesas, eles “intimidam e alienam os não muçulmanos”... Algumas mulheres francesas até usam o argumento de que elas vivenciam o fato de alguém usar uma burka como sua própria humilhação, como uma brutal exclusão, rejeição do laço social.
Isso nos conduz ao verdadeiro enigma: por que o encontro com um rosto coberto por uma burka desencadeia tal ansiedade? Então um rosto coberto pela burka não é mais o rosto levinasiano, a Alteridade a partir da qual o apelo ético incondicional emana? Mas, e se o caso for o oposto? De uma perspectiva freudiana, o rosto é a máscara derradeira que esconde o horror do Próximo-Coisa: a face é o que faz do Próximo le semblable, um semelhante com quem podemos nos identificar e simpatizar. (Sem mencionar o fato de que hoje muitos rostos são cirurgicamente modificados e assim desprovidos dos últimos vestígios de autenticidade natural). Este é, então, o motivo pelo qual um rosto coberto cause tal ansiedade: porque ele nos confronta diretamente com o abismo do Outro-Coisa, com o Próximo em sua inquietante dimensão. O próprio encobrimento da face oblitera um escudo protetor, de modo que o Outro-Coisa nos olha diretamente (lembremos que a burka tem uma estreita abertura para os olhos: nós não vemos os olhos, mas sabemos que há uma mirada lá). Alphonse Allais apresentou sua própria versão da dança dos sete véus de Salomé: quando Salomé está completamente nua, Herodes grita “Continue! Vá!”, esperando ela tirasse também o véu de sua pele. Nós poderíamos imaginar algo semelhante com a burka: o oposto de uma mulher tirando sua burka e revelando seu rosto natural. E se dermos um passo além e imaginarmos uma mulher “tirando” a pele de seu próprio rosto, de modo que o que nós víssemos sob sua face fosse uma superfície anônima lisa e escura como uma burka com uma pequena abertura para o olhar? “Ama o teu próximo!” significa, da maneira mais radical, precisamente o impossível=real amor por esse sujeito dessubjetivado, por essa monstruosa mancha escura cortada por uma fenda/olhar... Este é o motivo de que, no tratamento psicanalítico, o paciente não fique face a face com o analista: ambos olham para um terceiro ponto, uma vez que é apenas esta suspenção da face que abre o espaço da dimensão apropriada do Próximo. E reside aí também o limite do conhecido tópico crítico-ideológico da sociedade do controle total onde somos o tempo todo monitorados e gravados – o que escapa ao olho da câmera não é algum segredo íntimo, mas o próprio olhar, o objeto-olhar como a ruptura/mancha no Outro.  

Fonte do texto original: http://www.lacan.com/symptom11/?p=69

sexta-feira, 30 de abril de 2010

ENTREVISTA EXCLUSIVA: LUIS CARLOS BARBIERI


LUIS CARLOS BARBIERI Ganhou notoriedade com seu trabalho no Duo Barbieri-Schneiter, com o qual realizou, por 14 anos, concertos nas principais Salas do Brasil, além da Argentina, México, Itália, Áustria, Suíça e Portugal. Com o Duo gravou 3 CDs no Santuário Ecológico do Caraça (MG) lançados pela Rob Digital. A carreira do Duo foi interrompida com a morte prematura de Fred Schneiter, em 2001. Gravou, em 2002, o CD “Barbieri& Schneiter solo”, totalmente voltado para suas composições e as de Fred Schneiter. Participou como solista da trilha sonora do filme “O Outro lado da Rua”, de Marcos Bernstein (2004). Em 2006 gravou seu segundo CD solo intitulado “Violão Urbano” dedicado especialmente às obras de compositores brasileiros. Em 2003 sua música “Prelúdio e Dança nº 1” foi editada pela Edizioni Carrara (Itália) e lançada na Europa. Coordenou vários projetos musicais, tais como: “Classique 91” (Aliança Francesa/RJ), “O Violão na Sala” / 92, 93 e 94 (Sala Cecília Meireles/RJ), “Violonistas Compositores” / 95 (Espaço Cultural Sérgio Porto/RJ) e o “I Circuito Violão Real”/ 2004 (Cidades Históricas entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais). Coordena, desde 2004, a Mostra e Concurso Nacional de Violão Fred Schneiter, que está em sua 5º edição e é considerado um dos mais importantes Concursos de Violão do Brasil. Foi Diretor da AV-Rio (Associação de Violão do Rio) de 2001 a 2007, ano em que atuou como Presidente da Associação. Foi Professor Substituto do Curso de Graduação em Violão da Escola de Música da UFRJ de 2006 a 2007. Como destaques internacionais Barbieri realizou concertos no “Festival de Guitare de Lausanne” (Suíça/2002), nas “Jornadas Internacionales de debate sobre la Guitarra”, em Valencia (Espanha/2003), na Eglise de Camélas, Perpignan (França/2003), no“3º Festival Internacional Eduardo Fabini”, em Montevideo (Uruguai/2003), no Encuentro Internacional de Guitarras Homenage a Agustín Barrios, em Asuncion e San Juan Bautista (Paraguay/2006) e no 8º Festival Internacional Eduardo Fabini (Uruguai/2007) onde atuou como concertista, palestrante, professor e membro do júri. Em dezembro de 2005 realizou uma série de concertos na Espanha, Portugal e França. Recentemente apresentou-se no XX FESTIVAL INTERNACIONAL DE GUITARRA DO ICPNA, em Lima (Perú)*.

ENTREVISTA

- Conte um pouco sobre como foram seus primeiros contatos com o violão. Com que idade você começou a estudar?

R: COMECEI A TOCAR VIOLÃO AOS 11 ANOS DE IDADE. APRENDI COM MEU IRMÃO QUE APRENDIA COM UM PROFESSOR DE FLAUTA QUE NÃO SABIA MUITO DE VIOLÃO.
DEPOIS, AOS 15 ANOS TIVE MEU PRIMEIRO PROFESSOR DE VIOLÃO: ARY DOMINGUES QUE ENSINOU A SERIEDADE DE ESTUDO E ME INDICOU, DEPOIS DE QUASE DOIS ANOS, O SÉRGIO ASSAD, COM QUEM ESTUDEI 5 ANOS, DOS 17 AOS 22 ANOS.

- Quem te influenciava no início?

R: OUVIA MUITO O QUE MEU IRMÃO OUVIA: MILTON NASCIMENTO (E O VIOLÃO DO TONINHO HORTA ME ENCANTAVA), CHICO BUARQUE, CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL E ETC. POR SORTE MEU IRMÃO SEMPRE TEVE MUITO BOM GOSTO MUSICAL E EU IA NO EMBALO.

- Em que momento de sua vida você conheceu Fred Schneiter? Como surgiu o duo Barbieri-Schneiter?

R: NOS CONHECEMOS POR UM AMIGO EM COMUM, O FRANCISCO DIAS DA CRUZ, QUE TAMBÉM ERA VIOLONISTA.
DEPOIS TOCAMOS JUNTOS NA ORQUESTRA DE VIOLÕES DO TURÍBIO, COM QUEM EU ESTUDAVA NA UFRJ E O FRED NA UNIRIO, E NO QUARTETO CARIOCA DE VIOLÕES. ISSO LÁ POR 1985 1986.
O DUO NASCEU EM 1987 QUANDO DECIDIMOS NOS DEDICAR SOMENTE AO DUO, PARANDO COM OS CONCERTOS SOLO E ESTUDANDO DE SEGUNDA A SEGUNDA. AFINAL ESTAVAMOS COM 25 E 29 ANOS E NÃO TINHAMOS MAIS TEMPO A PERDER.

- Em relação à música instrumental erudita, aconteceram mudanças importantes nos últimos anos? E em relação à música de concerto pra violão? 

R: MUDANÇAS SEMPRE ACONTECEM. A MÚSICA ERUDITA, POR MAIS RESISTENTE QUE SEJA A MUDANÇAS, QUEIRA OU NÃO RECEBE INFLUENCIAS DA NOVA GERAÇÃO QUE VEM NATURALMENTE OCUPAR OS ESPAÇOS E COMEÇAR A DEIXAR SUA MARCA E SUAS CARACTERÍSTICAS.
ACHO QUE HOJE TEMOS MAIS ABERTURA E UM CANAL MAIS ABERTO COM A MÚSICA POPULAR.
NÃO GOSTO DO "POPULISMO" NA MÚSICA DE CONCERTO, COMO POR EXEMPLO USAR UMA ORQUESTRA PARA TOCAR SAMBA SÓ PARA SE APROXIMAR DO PÚBLICO, MAS ACHO QUE AS ORQUESTRAS ESTÃO MAIS PRÓXIMAS DO PÚBLICO EM GERAL. ESTE É UM PROCESSO LENTO E QUE, PELO MENOS, JÁ COMEÇOU A SE MOVIMENTAR.
O VIOLÃO É QUE, SE JÁ ESTAVA EM ALTA, AGORA SUPERA EM MUITO QUALQUER BOA EXPECTATIVA.
CADA VEZ MAIS TEMOS GRANDES NOMES EM VÁRIAS VERTENTES, DESDE O CLÁSSICO, ATÉ O VIOLÃO POPULAR.
É IMPRESSIONANTE O NÚMERO DE JOVENS VIOLONISTAS E A QUALIDADE DO TRABALHO DELES.
A MINHA GERAÇÃO CONSEGUIU CONSOLIDAR SEU TRABALHO E OCUPOU AINDA MAIS FRENTES QUE AS GERAÇÕES PASSADAS.
A PRÓXIMA GERAÇÃO, SEM DÚVIDAS VAI TAMBÉM SUPERAR ESTA MARCA.
CADA VEZ MAIS TEMOS MAIS PROFESSORES DE VIOLÃO EM MAIS UNIVERSIDADES.
EM SE TRATANDO DE DUO, TEMOS HOJE O SIQUEIRA LIMA, O BRAZILIAN GUITAR DUO, QUE JÁ SÃO REALIDADES INTERNACIONAIS E O JOVEM DUO MAIA, AQUI DO RIO.

- Além da apresentação e produção do programa "Violões em foco" na rádio MEC às quartas, 22h, conte o que mais tem feito.

R:ESTE ANO DECIDI QUE IRIA LANÇAR O CD DE MÚSICAS MINHAS E DO FRED QUE ESTAVA ENGAVETADO HÁ 8 ANOS. VAIS SER LANÇADO EM MAIO. EM OUTUBRO LANÇO OUTRO CD, QUE GRAVEI HÁ 5 ANOS, COM MÚSICAS MINHAS E DO FRED, ALÉM DE MARCO PEREIRA, EDINO KRIEGER E GAROTO. EM OUTUBRO, GRAVO O TERCEIRO, COM MIGNONE, RADAMES, MARCOS LOPES, MINHAS MÚSICAS E AS DO FRED.
A MOSTRA FRED SCHNEITER ACONTECE EM OUTUBRO, MAS PASSO O ANO FAZENDO CONTATOS E PREPARANDO TUDO, UMA VEZ QUE LEVA TEMPO PARA CONSEGUIR DINHEIRO PARA TUDO.
MENSALMENTE TEM O PROJETO CAFÉ CONCERTO, EM BENTO RIBEIRO, QUE PROVAVELMENTE É A PRIMEIRA SÉRIE REGULAR DE MÚSICA CLÁSSICA DO BAIRRO. ESTE ANO A PROPOSTA É AMPLIAR A PROGRAMAÇÃO PARA OUTROS INSTRUMENTOS E A ABERTURA FOI REALIZADA PELO DUO SANTORO DE VIOLONCELOS.
A SÉRIE ACONTECE NO CENTRO ESPÍRITA ISRAELS BARCELOS, ONDE HÁ 3 ANOS ESTUDO AS OBRAS BÁSICAS DO ESPIRITISMO ESCRITAS POR ALAN KARDEC.
ANO PASSADO COMECEI A DAR AULAS NA ESCOLA ALEMÃ CORCOVADO, NO HUMAITÁ, E COMECEI ENTÃO A ESTUDAR ALEMÃO O QUE ESTÁ ME ANIMANDO MUITO.
ESTE ANO COMECEI, FINALMENTE, MEU MESTRADO EM MUSICOLOGIA NA UFRJ, ONDE SOU ORIENTADO PELA VIOLONISTA MÁRCIA TABORDA. O TEMA, NATURALMENTE, TEM A VER COM O FRED E É A CATALOGAÇÃO DE SUA OBRA.

- Conte um pouco sobre o seu cd solo.

R: O CD FOI GRAVADO EM 2002 E TEM COMO REPERTÓRIO MINHAS MÚSICAS E AS DO FRED, DAI O NOME "BARBIERI & SCHNEITER - SOLO".
TINHA COMO PROJETO PARALELO AO DUO GRAVAR UM CD COM NOSSAS OBRAS PARA VIOLÃO SOLO.
QUANDO O FRED FALECEU ESTE PASSOU A SER MEU PROJETO PRINCIPAL.
POR ALGUM TEMPO MEUS PROGRAMAS DE CONCERTO SOMENTE TINHAM NOSSAS MÚSICAS.
O LANÇAMENTO SERÁ DIA 29 DE MAIO, ÀS 17 HORAS, NO CENTRO CULTURAL JUSTIÇA FEDERAL, NA AV. RIO BANCO, NO RIO.
A SALA É BELÍSSIMA E TEM UMA DAS MELHORES ACÚSTICAS DO BRASIL.
É PERFEITA PRA VIOLÃO.
APAREÇAM PARA CONFERIR.

*Texto de apresentação retirado de http://www.myspace.com/luiscbarbieri


quarta-feira, 28 de abril de 2010

Pavor nos bastidores: verdade, desejo e mentira (Iª parte) Slavoj Žižek



PAVOR NOS BASTIDORES: VERDADE, DESEJO E MENTIRA (Iª parte)[*]
Slavoj Žižek
Tradução: Rodrigo Nunes Lopes Pereira

            Esta obra menor, que sucede o fracasso comercial de Sob o Signo de Capricórnio é, sobretudo, conhecida pelo flashback inicial que acompanha o relato de Jonathan a Eve. Compreenderemos mais tarde que seu relato era mentiroso, que Jonathan havia forjado essa história para se justificar. Ora, nesta ocasião, suspeitava-se que Hitchcock queria violar a sacrossanta regra do cinema “realista”, aquela segundo a qual a imagem fílmica não deve mentir nunca (salvo tratar-se expressamente de mostrar um sonho ou uma miragem). Mas através de uma análise minuciosa do filme, seus ardentes defensores foram bem sucedidos em provar que as imagens do flashback não mentiam. Tudo o que se vê efetivamente se produziu: Charlotte na soleira da porta do apartamento de Jonathan com seu vestido ensanguentado, Jonthan que entra no apartamento de Eve para pegar outro vestido, tudo isso é verdade, stricto sensu, a única mentira se encontrava no comentário que Jonathan faz dessas imagens. Não há propriamente fala sem esse fundo de silêncio.
            Assim, para retomar o “argumento do caldeirão” freudiano – apresentar argumentos contraditórios –, este não é o único flashback mentiroso em Hitchcock. Um outro, igualmente mentiroso, acompanha o depoimento de Ann Baxter diante do juiz de instrução no filme A tortura do silêncio. Ela narra a maneira como conheceu o padre Logan, antes que este se tornasse padre. Embora seu depoimento não o mencione propriamente, sugere que eles tiveram relações sexuais quando dessa famosa noite de tempestade que os obrigou a permanecer fora. Mais tarde, Logan desmentirá formalmente o fato de que tenham sido amantes.
            Os críticos que tiveram como principal reclamação contra esse flashback seu sentimentalismo excessivo e simplório, revelam-se incapazes para apreender sua verdadeira natureza: não se trata, de maneira alguma, de um relato “objetivo” sobre o passado, mas da versão de sua ex-noiva, colorida pelo desejo de Logan. Umas vez mais, Hitchcock nos faz seus bobos: nós imaginamos que eles se amam, pois tal é nosso desejo, idêntico aí ao da narradora do flashback. Esse engôdo será para nós muito instrutivo: a falsificação do “estado de coisas” desvela a verdade do desejo da histérica, enquanto que, para o obsessivo, o desconhecimento da verdade sobre seu desejo toma, via de regra, a forma de “dizer o que se passou realmente”. A histérica, mentindo, diz a verdade; o obsessivo, dizendo a verdade, mente.
            Recordemos, a esse respeito, a resposta que Hitchcock deu à pergunta feita por Peter Bogdanovich sobre se eles, de fato, teriam dormido juntos àquela noite: “Assim espero. Ainda que, sendo eu um jesuíta, não encorage essa maneira de agir”. A contradição flagrante de sua resposta tem o mérito de deslocar a questão para o terreno do desejo e de sua interdição, isto é, para o plano da divisão do sujeito enquanto sujeito desejante: a mentira que diz a verdade sobre o desejo é para o sujeito uma das maneiras de suportar sua divisão.  
           


[*] Stage Fright (1950). Richard Todd, perseguido pela polícia, entra no carro de Jane Wyman, que sai a toda velocidade. Ela lhe pergunta o que aconteceu, e ele lhe conta. Ele estava em sua casa quando subitamente apareceu Marlène Dietrich, em pânico, com seu vestido branco manchado de sangue, para lhe dizer o que acaba de acontecer: ela matou seu marido, e veio pedir a Todd para lhe ajudar a suprimir uma prova. Ele aceita e, tendo aparecido nos lugares relacionados ao crime, teme ser considerado suspeito. Nós ficamos sabendo que Todd mentiu para Marlène Dietrich, para Jane Wyman e para a polícia, e que ele é o assassino.


Fonte: ŽIŽEK, Slavoj. “Le Grand alibi: vérité, désir et mensonge” IN: DOLAR, Mladen, MOCNIK, Rastko, SUMIC-RIHA, Jelica, VRDLOUEC, Zdenko. Sous la direction de ŽIŽEK, Slavoj. Tout ce que vous avez toujours voulu savoir sur Lacan sans jamais oser le demander à Hitchcock. Narvin Éditeur, Paris, 1988.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Como ler Lacan - 1. Introdução Slavoj Zizek


COMO LER LACAN
1.Introdução
Slavoj Žižek
Tradução: Rodrigo Nunes Lopes Pereira

Vamos tentar fazer uma pequena lavagem-cerebral em nós mesmos.[1]

Em 2000, o centésimo aniversário da Interpretação dos Sonhos de Freud foi acompanhado por uma nova onda de aclamações triunfalistas de como a psicanálise está morta: com os novos avanços nas ciências do cérebro, ela é finalmente posta no lugar a que pertencia todo o tempo, no quarto de despejo da busca obscurantista por sentidos ocultos, ao lado dos confessores religiosos e leitores de sonhos. Como colocou Todd Dufresne[2], nenhuma figura na história do pensamento humano esteve mais errada em relação a todos os seus fundamentos – com exceção de Marx, alguém poderia acrescentar. E, efetivamente e de maneira previsível, em 2005, ao Livro Negro do Comunismo, listando todos os crimes comunistas[3], seguiu-se o Livro Negro da Psicanálise.[4] Desta maneira negativa, ao menos, a profunda solidariedade do marxismo e da psicanálise é agora exibida para todos verem.
Há algo nesse discurso de funeral. Há um século, com o intuito de situar o inconsciente na história da Europa moderna, Freud desenvolveu a idea das três sucessivas humilhações do homem, as três “doenças narcísicas”, como ele as chamou. Primeiro, Copérnico demonstrou que a terra girava em torno do sol, privando-nos a nós humanos do lugar central no universo. Depois Darwin demonstrou nossa origem da cega evolução, privando-nos, deste modo, do lugar privilegiado entre os seres vivos. Finalmente, quando o próprio Freud tornou visível o papel predominante do inconsciente nos processos psíquicos, ele esclareceu que nosso ego não é mesmo o mestre em sua própria casa. Hoje, uma centena de anos depois, um quadro mais extremado está se delineando: os últimos avanços científicos parecem acrescentar toda uma série de humilhações adicionais à narcísica imagem do homem: nossa mente em si mesma é meramente uma máquina de computação para processamento de dados, nosso senso de liberdade e autonomia é meramente a ilusão do usuário dessa máquina. Consequentemente, em relação às ciências do cérebro atuais, a própria psicanálise, longe de ser subversiva, parece antes pertencer ao tradicional campo humanista ameaçado pelas últimas humilhações.
A psicanálise está hoje, então, totalmente ultrapassada? Parece que sim, em três níveis interligados: (1) o do saber científico, onde o modelo cognitivista-neurobiológico da mente humana parece suplantar o modelo freudiano; (2) o nível da clínica psiquiátrica, onde o tratamento psicanalítico rapidamente perde terreno para as pílulas e para a terapia comportamental; (3) o nível do contexto social, onde a imagem de uma sociedade, das normas sociais, que reprimem as pulsões sexuais individuais não parece mais válida em relação à permissividade hedonista predominante hoje. Não obstante, no caso da psicanálise, o funeral talvez seja um pouco precipitado, celebrando um paciente que ainda tem uma longa vida pela frente. Em contraste com as verdades “evidentes” dos críticos de Freud, meu intuito é demonstrar que somente hoje é chegado o tempo da psicanálise. Na leitura de Freud através de Lacan, no que Lacan chamou seu “retorno a Freud”. Os insights chave de Freud finalmente tornam-se visíveis em sua verdadeira dimensão. Lacan não concebeu esse retorno a Freud como um retorno ao que Freud disse, mas ao âmago da revolução freudiana da qual o próprio Freud não estava inteiramente ciente.
Lacan começou seu “retorno a Freud” com a leitura linguística de todo o edifício da psicanálise, condensada pela que é talvez sua única fórmula bem conhecida: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. A percepção predominante do inconsciente é a de que ele é o domínio das pulsões irracionais, algo oposto ao self consciente racional. Para Lacan, esta noção do inconsciente pertence à Lebensphilosophie (filosofia da vida) e não tem nada a ver com Freud. O inconsciente freudiano causou tal escândalo não por causa da alegação de que o self racional é subordinado ao muito mais vasto domínio dos instintos racionais cegos, mas porque ele demonstrou como o próprio inconsciente obedece à sua própria gramática e lógica – o inconsciente fala e pensa. O inconsciente não é o reservatório de pulsões selvagens que tem que ser conquistadas pelo ego, mas o lugar onde uma verdade traumática fala e pensa.  Aí reside a versão de Lacan da máxima de Freud wo es war, soll ich werden (onde era isso, eu devo chegar): não “o ego deve conquistar o id”, o lugar das pulsões inconscientes, mas “eu devo ousar acercar o lugar de minha verdade”.  O que me espera “aí” não é uma Verdade profunda com a qual eu tenho que me identificar, mas uma insuportável verdade com a qual eu tenho que aprender a conviver.
De que maneira, então, as idéias de Lacan diferem das escolas de pensamento psicanalítico da corrente dominante e do próprio Freud? Em relação às outras escolas, a primeira coisa que salta aos olhos é o teor filosófico da teoria de Lacan. Para Lacan, a psicanálise em seu aspecto mais fundamental não é uma teoria e técnica para tratar disturbios psíquicos, mas uma teoria e uma prática que confrontam os indivíduos com a mais radical dimensão da existência humana. Ela não mostra a um indivíduo o caminho para acomodá-lo às demandas da realidade social; ela explica como alguma coisa como a “realidade” constitui-se, em primeiro lugar. Ela não possibilita meramente a um ser humano aceitar a verdade reprimida sobre si ; ela explica como a dimensão da verdade emerge na realidade humana. Na visão de Lacan, formações patológicas como neuroses, psicoses e perversões têm a dignidade das atitudes filosóficas fundamentais diante da realidade. Quando sofro de neurose obsessiva, esta ‘doença’ colore toda a minha relação com a realidade e define a estrutura global de minha personalidade. A principal crítica de Lacan às outras orientações psicanalíticas diz respeito a sua orientação clínica: para Lacan, o objetivo do tratamento psicanalítico não é o bem-estar do paciente, uma vida social bem sucedida ou auto-realização, mas levar o paciente a confrontar as coordenadas elementares e impasses de seu desejo.
Em relação a Freud, a primeira coisa que salta aos olhos é que a alavanca usada por Lacan em seu “retorno a Freud” vem de fora da psicanálise: a fim de abrir os tesouros secretos de Freud, Lacan mobilizou uma eclética série de teorias, desde a linguística de Ferdinand de Saussure, passando pela antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss, até um conjunto de teorias matemáticas e de filósofos como Platão, Kant, Hegel e Heidegger. Não é de admirar que a maioria dos conceitos chave não tenha uma contraparte na própria teoria de Freud: Freud nunca mencionou a tríade Imaginário, Simbólico e Real, ele nunca falou sobre o “grande Outro” como a ordem simbólica, ele fala de “ego”, não de “sujeito”. Lacan usa esses termos importados de outras disciplinas como ferramentas para operar distinções que estão já presentes implicitamente em Freud, mesmo que ele não esteja ciente delas. Por exemplo, se a psicanálise é uma ‘cura pela fala’, se ela trata disturbios patológicos com palavras apenas, ela tem que se apoiar em certa noção de discurso; a tese da Lacan é que Freud não estava ciente da noção de discurso implicada em suas próprias teoria e prática, e que nós só podemos elaborar essa noção se nos referirmos à linguística saussureana, à teoria dos atos de fala e à dialética da recognição hegeliana.
O “retorno a Freud” de Lacan forneceu um novo fundamento teórico da psicanálise com imensas consequências para a clínica analítica. Controvérsia, crise, e mesmo escândalo acompanharam Lacan por todo o seu caminho. Ele não apenas foi, em 1953, excomungado da International Psychoanalytical Association, como também suas idéias provocativas perturbaram muitos pensadores progressistas, dos marxistas críticos às feministas. Apesar de, na academia ocidental, Lacan ser usualmente visto como um pós-moderno ou desconstrucionista, ele certamente não se limita aos espaços designados por esses rótulos. Através de toda sua vida, Lacan excedeu os rótulos atribuídos a seu nome: fenomenólogo, hegeliano, heideggeriano, estruturalista, pós-estruturalista; não é de espantar, posto que a mais marcante característica de seu ensino é o autoquestionamento. 
Lacan foi tanto um leitor quanto um intérprete voraz; para ele, a própria psicanálise é um método de leitura de textos, orais (a fala do paciente) ou escritos. Que melhor maneira de ler Lacan, então, do que praticar seu modo de leitura, ler os textos de outros com Lacan? Este é o motivo pelo qual, em cada capítulo deste livro, uma passagem de Lacan irá confrontar outro fragmento (de filosofia, de arte, de cultura popular e de ideologia). A posição lacaniana será elucidada através da leitura de Lacan de outro texto. Uma segunda característica deste livro é uma grande exclusão: ele ignora quase inteiramente a teoria de Lacan no que se refere ao tratamento psicanalítico. Lacan foi antes e acima de tudo um clínico, e considerações clínicas permeiam tudo o que ele escreveu e fez. Mesmo quando Lacan lê Platão, Tomás de Aquino, Hegel ou Kierkegaard, é sempre para elucidar um problema clínico específico. E é esta onipresença das preocupações clínicas o que nos permite excluí-las: precisamente porque a clínica está em toda parte, pode-se apagá-la e limitar-se a seus efeitos, à maneira como ela colore tudo o que se afigura como não-clínico – este é o verdadeiro teste de seu lugar central.
Em vez de explicar Lacan através de seu contexto histórico e teórico, Como ler Lacan usará o próprio Lacan para explicar nossas dificuldades sociais e libidinais. Em vez de oferecer um julgamento imparcial, este livro se engajará em uma leitura parcial – isto é parte da teoria lacaniana de que toda verdade é parcial. O próprio Lacan, em sua leitura de Freud, exemplifica a força de tal abordagem parcial. Em seu Notas para uma definição de cultura, T.S. Eliot observa que há momentos em que a única escolha que se apresenta é entre sectarismo e descrença, i.e., quando a única maneira para se manter uma religião viva é efetuar uma divisão em seu corpo principal. Através de sua divisão sectária, ao cindir-se do corpo decadente do International Psycho-Analytic Association, Lacan manteve o ensino de Freud vivo – e cabe a nós fazer o mesmo com Lacan.[5]

Lendo Lacan
            Se desconsiderarmos pequenos textos ocasionais (introduções e posfácios, transcrições improvisadas de intervenções e entrevistas, etc.), a obra de Lacan se divide em dois grupos: seminários (conduzidos semanalmente, desde o ano letivo de 1953 até a morte de Lacan, diante de um público sempre crescente) e écrits (textos escritos teóricos). O paradoxo destacado por Jean-Claude Milner é que, em contraste com a maneira usual de se opor o ensino oral secreto às publicações impressas para as pessoas comuns, os escritos de Lacan são “elitistas”, legíveis apenas para um círculo restrito, enquanto que seus seminários são destinados ao grande público e, como tais, muito mais acessíveis. É como se Lacan primeiro desenvolvesse diretamente uma certa linha teórica de maneira direta, com todas as oscilações e becos sem saída, e depois passa a condensar o resultado em cifras precisas, mas comprimidas. Na verdade, os seminários e os escritos de Lacan se relacionam como as falas do analisando e do analista no tratamento. Nos seminários, Lacan age como analisando, ele faz “livres associações”, improvisa, salta, fala com seu público, que é de forma colocado no papel de uma espécie de analista coletivo. Em comparação, seus escritos são mais condensados, feitos de fórmulas, atirando ao leitor proposições ambíguas ilegíveis que frequentemente aparecem como oráculos, desafiando o leitor a começar a trabalhar neles, a traduzi-los em teses claras e a oferecer exemplos e demonstrações lógicas deles. Em contraste com o procedimento acadêmico usual, onde o autor formula a tese e tenta sustentá-la através de argumentos, Lacan não apenas mais frequentemente deixa esse trabalho para o leitor – o leitor, amiúde, tem até que discernir o que exatamente são as teses efetivas de Lacan entre a multidão de formulações conflitantes ou a ambiguidade de um oráculo como única formulação. Neste sentido preciso, os écrits de Lacan são como intervenções de um analista cujo alvo não é fornecer ao analisando uma opinião ou afirmação pré-fabricada, mas colocar o analisando para trabalhar.
            Então, o que e como ler?  Os Écrits ou os seminários? A única resposta apropriada é uma variação da velha piada “chá ou café”: sim, por favor! Deve-se ler ambos. Se você for diretamente aos Écrits, não vai conseguir nada, então você deve começar – mas não parar – com os seminários, uma vez que, se você ler apenas os seminários, também não vai aprender. A impressão de que os seminários são mais claros e mais transparentes que os Écrits é profundamente ilusória: eles frequentemente oscilam, experimentam diferentes abordagens. A maneira apropriada é ler um seminário e então ler o écrit correspondente para “captar a questão” do seminário. Nós lidamos aqui com uma temporalidade de Nachtraeglichkeit (desajeitadamente traduzido como “ação retardada”[*]) que é própria do tratamento analítico mesmo: os Écrits são claros, eles oferecem fórmulas precisas, mas nós só podemos entendê-los depois de lermos os seminários os quais oferecem seu fundo. Dois casos marcantes são o Seminário VII sobre A ética da psicanálise e o écrit correspondente “Kant com Sade”, assim como o Seminário XI sobre Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise e “A posição do inconsciente”. Igualmente significativo é o ensaio de abertura de Lacan nos Écrits “O Seminário sobre A carta roubada”.
            Mais da metade dos seminários de Lacan estão agora disponíveis em francês; as traduções em inglês que se seguem com um atraso de alguns anos são normalmente de alta qualidade. Os Écrits estão disponíveis agora apenas em coletânea (a nova tradução de Bruce Fink é bem melhor do que a anterior). O próprio Lacan conferiu a Jacques-Alain Miller a tarefa de editar seus seminários para publicação, designando-o como “o (único) que sabe ler-me” – nisto ele estava certo: os numerosos escritos e seminários do próprio Miller são, de longe, a melhor introdução a Lacan. Miller realiza o milagre de tornar uma obscura página dos escritos completamente transparente, de maneira que nos perguntemos “como é que eu não pude entender?”.





[*] De acordo com o glossário da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, teríamos: ação “a posteriori, posterior, ação protraída, ação deferida. Fonte: http://www.sbpsp.org.br/glossario/default.asp?letra=a


[1] Jacques Lacan, The Ethics of Psychoanalysis, London: Routledge 1992, p. 307.

[2] Todd Dufresne, Killing Freud: 20th Century Culture and the Death of Psychoanalysis, London: Continuum Books 2004.

[3] Le livre noir du communisme, Paris: Robert Laffont 2000.

[4] Le livre noir de la psychanalyse: vivre, penser et aller mieux sans Freud, Paris: Arenes 2005.

[5] Uma vez que este livro é uma introdução a Lacan, centrado em alguns de seus conceitos básicos, e uma vez que este tópico é o foco do meu trabalho nas últimas décadas, não pude evitar certo grau de “canibalização” de meus livros já publicados. Como desculpa, eu tomei muito cuidado para dar a cada uma dessas passagens emprestadas um novo tratamento.